Brasília, 7 de
fevereiro de 2010
Confúcio Moura

Em todo lugar há
figuras folclóricas.
Aquelas pessoas que
carregam em si
mesmas marcas de
alegrias ou manias.
No Jaru teve o
Saravá que de tão
polêmico, só se o
ouvia se não desse
tempo de escapar
antes. Era portador
do TOC – transtorno
obsessivo
compulsivo. Com o
TOC o cara tem idéia
fixa, preocupação
continua. Ele tinha
mania de perseguir
falhas na saúde
pública.
Do outro lado tem o
VICENTÃO. Um boa
praça. Sempre de bem
com a vida. Nunca
reclama da sua vida
dura. Uma memória
prodigiosa do alto
dos seus 73 anos de
vida. Tem também a
sua mania, que é a
de entrar na roda de
conversa e daí a
pouca rouba a cena
só pra ele. Sempre
tem novidade pra
contar. O TOC dele é
a política. É MDB
desde Ulisses. Sua
cabeça é um
dicionário de datas
e nomes.
Vicente Souza Ramos
é maranhense.
Barbeiro de
profissão. A mania
de contar “causos”
veio da necessidade
de ganhar clientela
e segurar o sujeito
na cadeira enquanto
tilintava a tesoura
e manejava a
navalha. Enquanto
não concluísse a
história não dava
por fim a sua
tarefa. Ao fim o
freguês ganhava uma
mão de talco e Água
Velva. Do seu salão
o freguês saia rindo
e cheiroso.
Saravá já morreu.
Ainda é lembrado no
Jaru. Quem quiser
ganhar fama espere
pela morte. Saravá
ficou famoso pela
sua incomparável
chatice. Talvez
esteja no GWR –
Guinness World
Records. Sem dúvida
nenhuma, se um dia
chegasse à
Presidência da
República o nomearia
(in memorian) para o
Ministério da Saúde.
Vou deixar Saravá em
paz. Encontrei-me
com Vicentão dia 5
passado na Câmara de
Vereadores do Jaru.
Não tardou ele
começou mais um
caso, como se
verdadeiro fosse.
Tudo aconteceu na
sua viagem de férias
a São Paulo. Ele que
vive sereno e calmo
em sua casa, um
silêncio apavorante
noites inteiras, um
latido de vez em
quando, o Rio Jaru
apenas sussura na
cheia. A BR 364 fica
longe. Enquanto as
carretas de soja
passam
destrambelhadas nos
quebra-molas. Soja e
usinas deixaram a BR
um inferno. Preço
que se paga pelo
progresso.
Em São Paulo
não conseguiu ter
paz. A cidade não
dorme. Pelo
atordoado não se
sabe se é dia ou
noite. Veio uma
insônia apavorante.
Ele aproveitou o
tempo para elucidar
alguns enigmas que o
perseguia a tempo.
Os “olhos” imensos
nas asas de algumas
borboletas da
Amazônia, a
importância da pena
do pato, a estreita
relação da melancia
com a geografia da
Terra, os mistérios
do bico do tucano.
Enfim, depois de
semana sem dormir
conseguiu se
satisfazer com os
esclarecimentos das
noites em claro.
O PATO vive no lago,
mergulha, sai fora e
farfalha a asa e
água desaparece.
Está enxuto em
folha. Suas penas
são impermeáveis por
natureza. Enquanto a
galinha quando molha
fica toda embolada
por horas a fio. Foi
assim, por esta
propriedade rara que
a pena do pato
serviu à Princesa
Isabel para assinar
a Lei Áurea. Não
havia a caneta Big e
nem a Parker naquele
tempo. Era na base
da pena de pato e
tinteiro. O que deu
a ele a preciosidade
rara de entrar na
história. E a
infelicidade de
viver quase pelado
pela força da
preciosidade de suas
penas.
A MELANCIA, redonda
e rajada tem muito
para explicar a
geografia da Terra.
Corte-a ao meio no
sentido talo e fundo
e veja que está na
linha do Equador.
Cada metade
representa os
hemisférios norte e
sul. As listras
compridas são os
“paralelos” que
ficam distantes uns
dos outros 111
quilômetros. A
melancia tem os
paralelos. Se cortar
a melancia no
sentido contrário as
metades representam
o oriente e o
ocidente.
O TUCANO com seu
bico
desproporcional,
grande demais em
relação ao corpo,
também explica a sua
lógica de
sobrevivência. Tudo
aconteceu para se
proteger dos
predadores naturais.
Até a águia tem bico
pequeno em relação
ao corpo. E tem fama
de ave terrível. O
tucano não. É dócil
e pacífico. Mas,
ninguém mexe com
ele. Bicho nenhum o
ataca. Não vou me
meter com tucano,
com aquele enorme
bico pode engolir
até um boi, quanto
mais eu. E assim o
tucano vive às mil
maravilhas na
floresta.
A BORBOLETA enorme,
amarronzada, rajada,
tem dois grandes
“olhões” desenhados
nas asas. Elas ficam
nas pedras e caules.
E quando voam é como
se planassem no ar.
Para quê os “olhões”
nas asas? Também
para a defesa dos
predadores. A
explicação é uma só
– os bichos pensam
assim: - se o leão
que é o mais temido
animal tem olhinhos
pequenos, meio
cocuretados pra
fora, elípticos como
os olhos dos
orientais, como é
que vou atacar a
borboleta com estes
olhos do tamanho da
lua? E com isto
quando avistam a
borboleta saem
desesperados em
correrias.
Por fim, na sua
viagem à São Paulo,
o mestre Vicentão
foi visitar o Museu
do Ipiranga. Lá onde
está Dom Pedro I com
sua espada
levantada, montado
no cavalo branco,
bradando o histórico
Grito do Ipiranga –
INDEPENDENCIA OU
MORTE. Logo perto
de Dom Pedro está a
estátua de Rui
Barbosa. Ele se
lembrou da historio
do ladrão de
galinha. Rui estava
dormindo e acordou
com um barulho no
quintal. Levantou-se
de pijama e foi ver
o que era. Um
ladrãozinho saltou o
muro e tinha entrado
no galinheiro e
estava à porta com
galinha de Rui
Barbosa debaixo do
braço.
Rui disse “Não é
pelo bico do bípede
e nem pelo valor do
galináceo, mas, por
ter rompido os
umbrais de minha
residência. Enorme
desaforo. Se for por
mera ignorância
perdoou-te. Mas, se
for para abusar de
minha alma
prosopopéia, juro-te
pelos tacões
metabólicos de meus
calçados, dar-te-ei
tamanha bordoada que
transformarei suas
massas encefálicas
em massas
cadavéricas. O
ladrão não sabia o
que Rui Barbosa
estava falando, logo
indagou: - e aí
doutor, eu levo ou
não levo a galinha?
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